A recente publicação da Folha de S. Paulo, ao usar a analogia de um engenheiro que defende uma ponte com falhas estruturais, aponta para um fenômeno psicológico crucial: o viés de confirmação. Embora a notícia foque no investidor individual, sua essência ressoa profundamente no ambiente corporativo, especialmente nas esferas de gestão fiscal e financeira. Não é incomum que, no calor da estratégia ou diante de resultados ambíguos, diretores financeiros e controllers desenvolvam uma espécie de "advocacia interna", defendendo teses ou investimentos que, inicialmente promissores, mostram-se cada vez mais insustentáveis ou desatualizados frente a novas evidências, mudanças regulatórias ou do mercado.
O que isso significa na prática
Para a sua empresa, essa postura se traduz em riscos concretos. Significa, por exemplo, a insistência em uma tese tributária agressiva quando a jurisprudência dominante já sinaliza desfavoravelmente, ou a manutenção de um planejamento fiscal desenhado sob uma legislação que foi alterada. O "engenheiro" corporativo pode, inadvertidamente, priorizar a defesa de uma decisão ou interpretação fiscal tomada no passado sobre a segurança financeira e a conformidade atual da companhia. Da mesma forma, pode ocorrer na defesa obstinada de projetos com alto investimento inicial, mesmo com indicadores de retorno cada vez mais negativos, ou na dificuldade em reavaliar contratos e parcerias estratégicas que já não entregam o valor esperado.
Os impactos diretos para as médias e grandes empresas são significativos. Podemos falar de perdas financeiras substanciais decorrentes de litígios tributários perdidos, multas elevadas por inconformidade com a legislação vigente, alocação ineficiente de capital em iniciativas que não prosperam, e até mesmo danos irreparáveis à reputação da companhia. A persistência no erro, muitas vezes mascarada pela tentativa de "provar o ponto" ou justificar escolhas anteriores, pode erodir o caixa, desviar recursos humanos e estratégicos preciosos, e comprometer o crescimento e a sustentabilidade a longo prazo.
O que sua empresa deve fazer agora
A chave para mitigar esses riscos reside na adoção de uma postura proativa e na instauração de uma cultura de reavaliação contínua e objetiva. Sua empresa deve instituir processos robustos de revisão periódica e independente de todas as suas estratégias fiscais e decisões de investimento de alto impacto. Isso inclui a realização de auditorias independentes por terceiros especializados, a análise de cenários com a participação de consultorias externas, e a criação de um ambiente onde a contestação construtiva e a flexibilidade estratégica sejam valorizadas como ferramentas de governança e não como sinais de fraqueza.
Para ser ainda mais concreto, implemente comitês de governança que exijam validação externa para decisões críticas, especialmente aquelas que envolvem disputas fiscais prolongadas ou grandes aportes financeiros. Utilize ferramentas de análise de dados e inteligência artificial para monitorar tendências legislativas e de mercado em tempo real, permitindo uma reavaliação ágil e baseada em fatos concretos, não em vieses. Não hesite em buscar pareceres jurídicos e tributários independentes que desafiem as premissas internas e ofereçam uma perspectiva isenta. O custo de um segundo parecer é infinitamente menor do que o prejuízo de uma decisão equivocada mantida por teimosia.
Em suma, a verdadeira resiliência e perenidade corporativa não residem na obstinação em defender o passado, mas na capacidade de adaptação, na busca incessante pela otimização e na coragem de mudar de rota quando os fatos assim o exigem. Ao invés de ser o "advogado" de decisões passadas, o líder financeiro moderno deve ser o "engenheiro" que constantemente recalcula, aprimora e, se necessário, redesenha a estrutura da empresa, garantindo sua solidez e prosperidade em um cenário econômico e regulatório cada vez mais dinâmico.