A notícia de que a Europa ampliou sua liderança na transição para combustíveis de aviação mais limpos, superando EUA e Ásia, carrega uma mensagem crucial para o cenário corporativo: a obrigatoriedade regulatória está se provando um catalisador muito mais potente do que meros incentivos. Esta dinâmica, impulsionada por iniciativas como o pacote "Fit for 55" e o regulamento ReFuelEU Aviation da União Europeia, estabelece cotas mandatórias para a mistura de Combustíveis de Aviação Sustentáveis (SAF) no querosene de aviação. Para CFOs, controllers e diretores financeiros, isso não é apenas uma questão ambiental; é uma mudança estrutural que redefinirá custos, riscos e estratégias de compliance em escala global.
O que isso significa na prática
A imposição de mandatos de SAF na Europa significa que as companhias aéreas que operam para, de ou dentro do continente terão que adquirir e utilizar volumes crescentes desse combustível. Considerando que o SAF é, atualmente, significativamente mais caro que o querosene de aviação tradicional (Jet A-1), os custos operacionais das companhias aéreas aumentarão substancialmente. Essa elevação de custos será, inevitavelmente, repassada aos clientes, seja por meio de tarifas mais altas para passagens aéreas ou de fretes mais caros. Isso cria um novo paradigma para empresas brasileiras que dependem de cadeias de suprimentos globais e viagens corporativas, exigindo uma reavaliação de seus modelos de negócios e projeções financeiras.
Para empresas com operações internacionais ou cadeias de valor que incluem transporte aéreo, o impacto é direto e multifacetado. Primeiramente, os custos de logística e viagens corporativas para destinos europeus, ou que transitem pela Europa, tendem a crescer. Em segundo lugar, a disponibilidade e precificação do SAF no longo prazo se tornam variáveis críticas que podem afetar a resiliência da cadeia de suprimentos. Empresas exportadoras e importadoras, especialmente aquelas que lidam com produtos de alto valor agregado e perecíveis, precisarão incorporar esses novos custos e riscos em suas análises de viabilidade. Adicionalmente, a pressão por transparência e reporte de emissões de GEE associadas ao transporte aéreo aumentará, demandando sistemas de gestão de dados mais robustos e o potencial surgimento de taxas ou tributos sobre emissões.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante deste cenário, a proatividade é fundamental. Sua empresa deve iniciar uma avaliação detalhada da sua exposição ao transporte aéreo e aos mandatos de SAF. Isso inclui mapear rotas de voo de executivos e cargas, quantificar volumes e custos atuais, e projetar cenários futuros com base nas estimativas de preços do SAF e as cotas regulatórias em vigor na Europa. É essencial engajar-se com seus fornecedores de logística e companhias aéreas para entender suas estratégias de SAF e como planejam repassar esses custos. Financeiramente, é imperativo atualizar orçamentos e projeções, incorporando os aumentos esperados nos custos de transporte. Do ponto de vista de compliance e gestão fiscal, monitorar a evolução das regulamentações internacionais e domésticas é crucial, antecipando potenciais incentivos ou tributações futuras relacionadas ao carbono e à sustentabilidade da aviação. A formação de um comitê multifuncional, envolvendo finanças, compras/logística, legal e sustentabilidade, pode ser um passo estratégico para desenvolver uma resposta coordenada.
Em suma, a transição para combustíveis de aviação mais limpos, liderada por mandatos regulatórios na Europa, é um prenúncio de uma nova era para a gestão de riscos e custos corporativos. Ignorar essa tendência significa expor-se a desvantagens competitivas e vulnerabilidades financeiras. Ao adotar uma postura estratégica e antecipatória, as empresas brasileiras podem transformar esse desafio em uma oportunidade de otimização de custos e fortalecimento da sua reputação de sustentabilidade em um mercado global cada vez mais consciente.