A notícia de que o Brasil registra um desemprego baixo e uma massa salarial recorde, ao mesmo tempo em que a inflação persistente e os juros a patamares elevados – como a Selic a 14% – corroem o poder de compra e impulsionam a inadimplência, soa como um paradoxo. Para CFOs, controllers e diretores financeiros, essa aparente contradição não deve ser lida como um sinal de resiliência, mas sim como um alerta. O que se observa é uma erosão significativa da renda disponível real, transformando ganhos nominais em perdas substanciais no poder de consumo das famílias brasileiras.
O que isso significa na prática
A percepção de renda recorde pode mascarar a dificuldade crescente das famílias em honrar seus compromissos. Com alimentos mais caros e o crédito a juros proibitivos, o orçamento doméstico se torna um campo de batalha. Para o mundo corporativo, essa dinâmica se traduz em desafios tangíveis. Empresas do varejo e de serviços, por exemplo, sentem diretamente a retração do consumo. A desaceleração da demanda e o aumento dos custos de vida impulsionam a busca por produtos e serviços mais baratos, alterando padrões de compra e exigindo das empresas uma revisão de suas estratégias de precificação e de gestão de estoques.
O impacto se estende à gestão financeira e tributária. Com o aumento da inadimplência das famílias, o risco de crédito para as empresas B2C (e indiretamente B2B, pela cadeia de fornecimento) se eleva. Isso exige um monitoramento mais rigoroso das carteiras de recebíveis, impactando o fluxo de caixa e a necessidade de provisionamentos para perdas. Do ponto de vista tributário, a elevação da inadimplência gera um desafio duplo: a redução da base de cálculo de tributos sobre vendas (PIS/COFINS, ICMS) devido à menor demanda, e a necessidade de gerenciar eficientemente a recuperação de créditos fiscais sobre perdas por inadimplência (notadamente para IRPJ/CSLL e PIS/COFINS, nos termos da legislação específica). Além disso, o custo do capital elevado torna qualquer atraso ou necessidade de financiamento para honrar obrigações tributárias ainda mais oneroso.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante desse cenário complexo, a proatividade é fundamental. Sua empresa deve intensificar a análise e o gerenciamento de seus indicadores financeiros e tributários, com foco em:
- Gestão de Fluxo de Caixa e Liquidez: Reforçar as projeções de caixa e realizar testes de estresse para diferentes cenários econômicos. Buscar otimização de custos e despesas, renegociando contratos com fornecedores e revisando processos.
- Política de Crédito e Cobrança: Revisitar e endurecer políticas de concessão de crédito, monitorando de perto o perfil de risco dos clientes. Fortalecer os processos de cobrança, avaliando estratégias de renegociação de dívidas que mitiguem perdas e preservem o relacionamento com o cliente.
- Planejamento e Otimização Tributária: Dada a maior probabilidade de perdas por inadimplência, é crucial otimizar a recuperação de créditos de PIS/COFINS e IRPJ/CSLL sobre essas perdas. Analisar a viabilidade de regimes tributários que ofereçam maior flexibilidade ou alívio em momentos de menor faturamento. Estudar a possibilidade de parcelamentos ou regimes especiais que possam aliviar a pressão sobre o caixa.
- Análise de Cenários e Resiliência Estratégica: Avaliar a resiliência do modelo de negócios a um ambiente de consumo retraído e custos de capital elevados. Considerar diversificação de produtos/serviços, mercados ou canais de distribuição para mitigar riscos.
A colaboração estreita entre os departamentos financeiro, jurídico e tributário é mais crucial do que nunca. A compreensão das nuances legais e fiscais relacionadas à inadimplência e à gestão de custos pode gerar valor significativo, protegendo o caixa e a margem de lucro da empresa. Ignorar a pressão sobre o bolso das famílias é subestimar o impacto direto no balanço patrimonial e na demonstração de resultados da sua organização.
Este cenário de desequilíbrio entre renda nominal e real, somado a juros altos, não é uma conjuntura passageira. Ele aponta para a necessidade de uma gestão financeira e tributária mais robusta e adaptável, que consiga navegar por águas turbulentas com inteligência fiscal e agilidade operacional. Empresas que investirem na melhoria de seus controles internos, na otimização tributária e na revisão estratégica de seus modelos de negócio estarão mais preparadas para garantir sua sustentabilidade e competitividade no longo prazo.
Fonte: https://www.infomoney.com.br/economia/inadimplencia-inflacao-juros-altos-renda-recorde/