O recente levantamento da RGF revelando um aumento superior a 100% no volume de micro e pequenas empresas (MPEs) em recuperação judicial (RJ) desde 2023 não é apenas uma estatística isolada. Ele sinaliza uma profunda alteração no perfil das empresas em crise no Brasil e merece uma análise estratégica por parte de CFOs e diretores financeiros de médias e grandes corporações. Tradicionalmente, a recuperação judicial era associada a empresas de maior porte ou setores específicos. O deslocamento do foco para as MPEs reflete um ambiente econômico desafiador, com juros altos, crédito mais restrito e a necessidade de adaptação a novos cenários pós-pandemia, impactando diretamente a capacidade de caixa e a gestão de dívidas dessas empresas.
O que isso significa na prática
Para médias e grandes empresas, esse cenário se traduz em riscos concretos e sistêmicos. As MPEs frequentemente compõem uma parcela significativa da cadeia de valor, atuando como fornecedores de insumos, prestadores de serviços ou até mesmo como clientes. A instabilidade financeira de um elo dessa cadeia pode gerar interrupções operacionais, desabastecimento, perda de vendas ou, ainda, a incapacidade de recuperação de créditos. A exposição a riscos de crédito aumenta exponencialmente. Empresas que concederam prazos de pagamento ou financiaram MPEs podem ver seus balanços impactados por perdas significativas, com reflexos diretos na provisão para devedores duvidosos e na rentabilidade. Além disso, a gestão de passivos tributários e fiscais de credores em processos de RJ de MPEs pode se tornar complexa, demandando expertise jurídica e contábil para mitigar perdas e otimizar recuperações.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante dessa realidade, a proatividade se torna mandatório. CFOs e suas equipes devem intensificar as práticas de due diligence e monitoramento contínuo da saúde financeira de seus parceiros comerciais, especialmente aqueles classificados como MPEs. A revisão e o fortalecimento de cláusulas contratuais que prevejam cenários de inadimplência ou RJ, incluindo garantias e mecanismos de rescisão ou renegociação, são cruciais. É fundamental diversificar a base de fornecedores e clientes sempre que possível, reduzindo a dependência de players isolados. Internamente, a gestão de fluxo de caixa e a otimização de capital de giro devem ser prioritárias, com especial atenção à formação de provisões e à revisão de políticas de concessão de crédito. Avaliar o impacto fiscal de eventuais perdas e planejar estratégias para compensação de prejuízos ou recuperação de créditos tributários em processos de recuperação judicial também é uma medida inteligente. Considerar a assessoria de advogados tributaristas e especialistas em recuperação judicial para mapear riscos e estruturar defesas ou estratégias de recuperação é um investimento que pode evitar perdas futuras e garantir a conformidade fiscal e legal da sua operação em um ambiente cada vez mais volátil.
Em suma, o crescimento da recuperação judicial entre MPEs não é um problema exclusivo delas. É um termômetro da economia e um fator de risco transversal que exige uma abordagem estratégica e multidisciplinar das grandes corporações. A capacidade de antecipar riscos, proteger ativos e adaptar-se rapidamente a um cenário de volatilidade será o diferencial para a sustentabilidade e o crescimento no longo prazo.
Fonte: https://www.contabeis.com.br/noticias/78518/recuperacao-judicial-cresce-entre-pequenas-empresas/