A notícia de que a Azimut-Benetti, renomado estaleiro italiano de iates de luxo, iniciará em 2027 a produção de seu megaiate Grande 30 Metri no Brasil, com um valor estimado de R$ 90 milhões por unidade, transcende a simples expansão de mercado. Para o corpo diretivo financeiro de médias e grandes empresas brasileiras, este movimento sinaliza decisões estratégicas profundamente embasadas em complexos arranjos fiscais, aduaneiros e logísticos. Não se trata apenas de atender a uma demanda crescente por luxo, mas de posicionar uma operação de manufatura de alto valor agregado em um ambiente tributário em constante evolução.
O que isso significa na prática
A escolha do Brasil para a produção de um ativo de tamanha envergadura é um indicativo forte de que o país oferece — ou se compromete a oferecer — condições competitivas, que vão além da mera localização geográfica. Este cenário levanta a importância da atratividade dos regimes tributários especiais e dos incentivos fiscais para a indústria naval ou para exportadores. As empresas envolvidas, desde a Azimut até sua cadeia de fornecedores, precisam navegar por um labirinto regulatório que envolve IPI, PIS/COFINS, ICMS, e tarifas de importação para componentes e matérias-primas. Regimes como o Drawback ou REPORTO podem ser decisivos para mitigar a carga tributária sobre insumos importados e a exportação do produto final, garantindo competitividade.
Além disso, a produção a partir de 2027 posiciona este empreendimento diretamente na vigência da Reforma Tributária (Emenda Constitucional nº 132/2023), que instituirá o IVA dual (CBS e IBS). Para a fabricação de bens de capital e de alto valor, a acumulação de créditos tributários será um ponto crítico. O novo sistema, com alíquotas uniformes para bens e serviços, pode transformar a dinâmica de custos e a precificação, especialmente em um setor que demanda insumos globais e cujo mercado consumidor pode estar tanto no Brasil quanto no exterior. A capacidade de recuperar créditos de forma eficiente será um diferencial.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante deste panorama, CFOs e diretores financeiros devem adotar uma postura proativa. Primeiramente, é imperativo realizar uma profunda revisão e otimização do planejamento tributário, buscando identificar oportunidades de enquadramento em regimes especiais ou benefícios setoriais que possam surgir ou já existam. Para empresas que aspiram a integrar a cadeia de valor de projetos de alto valor agregado, é fundamental avaliar a própria estrutura de custos e a conformidade fiscal para se tornarem fornecedores competitivos. Em segundo lugar, e talvez o mais crítico, é iniciar a modelagem de cenários e o diagnóstico dos impactos da Reforma Tributária. Compreender como o IVA dual afetará o fluxo de caixa, a acumulação de créditos e a formação de preços é essencial para mitigar riscos e capitalizar sobre novas oportunidades. O tempo até 2027 exige não apenas monitoramento, mas ação estratégica e decisiva na gestão fiscal.
A decisão da Azimut é um farol que ilumina a complexidade e as oportunidades no cenário industrial brasileiro. Para os líderes financeiros, a capacidade de antecipar e adaptar-se às mudanças fiscais e regulatórias definirá a resiliência e o sucesso a longo prazo de suas organizações.