A recente declaração do Presidente da República sobre seu desejo de buscar um quarto mandato presidencial, sob a justificativa de impedir o retorno de uma ideologia política que “ria de asfixiados”, transcende a mera retórica eleitoral. Para CFOs, controllers e diretores financeiros, este tipo de posicionamento é um sinal claro sobre a provável direção e a intensidade das políticas governamentais nos próximos anos. Não se trata apenas de uma disputa ideológica, mas da sinalização de um modelo de Estado e de economia que tende a se consolidar ou a ser reforçado, com repercussões diretas na forma como as empresas operam, investem e pagam seus impostos.
O que isso significa na prática
A potencial continuidade de um projeto político, conforme sinalizado, aponta para uma manutenção ou aprofundamento de certas diretrizes macroeconômicas e fiscais. Em termos práticos, isso pode se traduzir em: 1) Maior intervenção estatal em setores considerados estratégicos, com possíveis impactos em regulamentação e concorrência. 2) Aprofundamento das discussões sobre reforma tributária, com uma provável ênfase na progressividade, na tributação de grandes fortunas, dividendos ou no aumento de alíquotas para certos segmentos corporativos, visando financiar programas sociais e políticas públicas. 3) Reforço da agenda ESG (Ambiental, Social e Governança), com novas exigências regulatórias e ambientais que impactarão a cadeia de valor e os custos de compliance. O discurso que contrapõe 'asfixiados' a 'aqueles que riem' sugere uma inclinação a políticas de proteção social mais robustas, que inevitavelmente demandam financiamento público, geralmente provindo de uma maior arrecadação ou endividamento.
Para as empresas, o impacto direto pode ser multifacetado. No âmbito fiscal, é prudente antecipar um ambiente de maior escrutínio e, potencialmente, de aumento da carga tributária, especialmente para setores com alta rentabilidade ou multinacionais. O planejamento tributário, que já é complexo no Brasil, precisará incorporar cenários de maior risco regulatório e de mudanças nas regras do jogo. Além disso, a política econômica pode influenciar taxas de juros, inflação e o ambiente de crédito, afetando diretamente o custo de capital e a rentabilidade dos projetos de investimento. A incerteza política, mesmo que disfarçada sob uma busca por continuidade, pode desestimular investimentos de longo prazo, caso o horizonte regulatório e fiscal não seja percebido como estável ou previsível dentro de uma lógica de mercado.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante deste cenário, a proatividade é fundamental. 1) Intensifique o monitoramento político-econômico: Vá além dos noticiários e busque análises aprofundadas sobre as tendências de políticas públicas e suas bases ideológicas. 2) Realize simulações de cenários fiscais: Sua equipe de finanças e tributos deve modelar o impacto de diversas propostas de reforma tributária ou de aumento de alíquotas sobre o fluxo de caixa, rentabilidade e valuations da empresa. 3) Avalie e fortaleça a agenda ESG: Entenda as tendências regulatórias e de mercado, investindo em práticas sustentáveis e de governança não apenas por compliance, mas como diferencial competitivo. 4) Revise o planejamento estratégico de longo prazo: Garanta que os planos de investimento e expansão estejam preparados para lidar com um ambiente de maior regulação e possíveis mudanças na política econômica. 5) Engajamento estratégico: Através de associações setoriais, participe ativamente dos debates sobre políticas públicas, defendendo os interesses do setor de forma construtiva e baseada em dados.
Aja preventivamente. Não espere as eleições de 2026 para iniciar um comitê interno multidisciplinar focado em análise de risco político, fiscal e regulatório. A capacidade de antecipar e adaptar-se a um ambiente de potenciais transformações é o que diferenciará as empresas resilientes. A gestão financeira e tributária hoje exige uma visão ampla, que integre a compreensão do cenário político como um pilar essencial para a sustentabilidade e o crescimento no longo prazo.