A fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que “a esquerda se tornou o sistema” e precisa “praticar a coerência”, vai além de uma simples reflexão política. Para CFOs, controllers e diretores financeiros, essa autocrítica, ou no mínimo um reposicionamento discursivo, carrega um peso significativo para o ambiente de negócios e, em particular, para a gestão fiscal e estratégica de médias e grandes empresas no Brasil. Em um cenário onde a previsibilidade é ouro, a incoerência entre discurso e prática governamental é um dos maiores vetores de risco e incerteza, impactando diretamente o planejamento de longo prazo e a alocação de capital.
O que isso significa na prática para o mundo corporativo
Quando o presidente afirma que a esquerda “se tornou o sistema”, há um reconhecimento tácito do papel institucional e da responsabilidade inerente ao poder estabelecido. Isso, teoricamente, deveria se traduzir em políticas públicas mais maduras, menos reativas e com maior alinhamento entre as diversas esferas do governo. A exigência de “praticar a coerência” eleva a barra para a consistência das ações governamentais, desde a formulação de uma reforma tributária até a execução orçamentária. Para as empresas, essa coerência é fundamental para a confiança nos investimentos, na estabilidade da carga tributária e na previsibilidade regulatória, elementos cruciais para qualquer projeção financeira robusta.
O impacto direto para as empresas é multifacetado. Primeiramente, na área fiscal, qualquer desvio da coerência pode resultar em mudanças abruptas na legislação, novas exigências de conformidade ou interpretações fiscais mais rigorosas. A falta de alinhamento entre as promessas de campanha e as medidas econômicas efetivas gera volatilidade nos mercados e dificulta a gestão de caixa e o planejamento tributário. Adicionalmente, a percepção de que o governo, agora “o sistema”, está comprometido com a coerência, pode influenciar decisões de investimento estrangeiro e nacional, alterando a dinâmica competitiva e o acesso a capital. É um chamado para observarmos se este discurso se traduzirá em uma política econômica e fiscal mais estável e racional, evitando surpresas que abalem a confiança.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante dessa perspectiva, é imperativo que sua empresa adote uma postura proativa. Primeiramente, intensifique o monitoramento legislativo e regulatório. Não se atenha apenas às manchetes, mas aprofunde-se nos detalhes das propostas de lei e atos normativos. Em segundo lugar, desenvolva cenários de planejamento fiscal e financeiro que contemplem diferentes níveis de “coerência” governamental. Prepare-se para possíveis ajustes em alíquotas, bases de cálculo e regimes especiais que possam ser implementados para “financiar” a visão de um governo agora “no sistema”.
Sua equipe de finanças e jurídico-tributário deve estar preparada para revisitar estratégias de compliance, avaliar o impacto de reformas como a da tributação sobre o consumo e manter um canal aberto com associações setoriais para influenciar ativamente a agenda legislativa. A capacidade de adaptação e a agilidade na revisão de projeções serão diferenciais competitivos. No longo prazo, a adesão a uma postura de coerência pelo governo pode sinalizar um ambiente mais previsível, mas até que isso se consolide, a vigilância e a resiliência estratégica são as palavras de ordem para a saúde financeira do seu negócio.