A revolução da Inteligência Artificial (IA) está ressignificando o que consideramos valor no ambiente corporativo. Se antes a capacidade de executar tarefas complexas ou processar vastas quantidades de informação era um diferencial competitivo, a IA generativa democratiza esse acesso a um ponto em que “fazer qualquer coisa” se torna cada vez mais trivial. Nesse cenário, o Vale do Silício aponta para uma nova habilidade cobiçada: o “bom gosto”. Mas o que significa exatamente esse conceito em um contexto empresarial, especialmente para CFOs, controllers e diretores financeiros de médias e grandes empresas?
O que isso significa na prática
O “bom gosto” aqui transcende a estética. Estamos falando de um refinado senso de julgamento, de discernimento crítico e de uma visão estratégica apurada. Em um mundo onde a IA pode gerar relatórios, analisar dados fiscais complexos e até esboçar estratégias, a verdadeira vantagem competitiva reside na capacidade de escolher o caminho certo. Isso envolve a habilidade de formular as perguntas corretas, de interpretar nuances que a máquina pode ignorar, de identificar riscos não óbvios e de priorizar soluções que ressoem não apenas com a eficiência numérica, mas com os valores, a cultura e a visão de longo prazo da empresa. Para um líder financeiro, isso se traduz em discernir qual estratégia tributária é a mais sustentável, qual investimento oferece o melhor equilíbrio entre risco e retorno, ou qual sistema de compliance realmente agrega valor além do mero cumprimento de regras.
O impacto direto para as empresas é profundo. Organizações cujas lideranças financeiras cultivam esse “bom gosto” estratégico estarão mais aptas a navegar pela complexidade regulatória e fiscal brasileira, a inovar em modelos de negócio e a proteger o capital de forma mais inteligente. Essas lideranças serão os arquitetos de um futuro onde a tecnologia serve como um poderoso motor, mas a direção e o propósito são definidos por uma inteligência humana aguçada. Em contrapartida, empresas que se limitam a automatizar processos sem desenvolver a capacidade de julgamento em seus líderes correm o risco de se tornarem meras replicadoras de tendências, perdendo a oportunidade de criar valor único e duradouro, ou pior, de tomar decisões que, embora tecnicamente corretas, são estrategicamente equivocadas.
O que sua empresa deve fazer agora
É imperativo que as empresas invistam no desenvolvimento desse “bom gosto” estratégico em suas equipes financeiras. Isso significa ir além do treinamento técnico em ferramentas de IA. É necessário fomentar o pensamento crítico, a capacidade analítica profunda, a visão holística e a ética. Programas de desenvolvimento de liderança devem focar em estudos de caso complexos, discussões sobre dilemas éticos, estratégias de negociação e, crucialmente, no entendimento do contexto macroeconômico e regulatório. O objetivo é capacitar os profissionais a usar a IA como uma ferramenta para expandir suas capacidades, e não para substituir seu julgamento. Encoraje a experimentação, mas sempre com um olho crítico na aplicação prática e nos resultados que realmente importam.
Minha recomendação concreta é que CFOs e diretores financeiros passem a avaliar seus times não apenas pela capacidade de gerar números, mas pela perspicácia em interpretá-los, pela habilidade em propor soluções criativas para desafios complexos e pela visão estratégica de longo prazo. É o momento de redefinir as métricas de sucesso e investir em mentorias que aprimorem a capacidade de discernimento. O futuro da gestão fiscal e financeira não se resume à automação, mas à curadoria inteligente de soluções, estratégias e talentos, onde o fator humano do “bom gosto” será o verdadeiro divisor de águas.
Em um cenário onde a IA assume as tarefas operacionais e de análise de dados massivos, o valor do ser humano se desloca para o campo da curadoria, da escolha e da direção estratégica. O “bom gosto” não é um luxo, mas uma necessidade evolutiva para as lideranças financeiras que desejam prosperar e guiar suas empresas com propósito e inteligência na nova economia.