A recente notícia do impacto de US$ 40 milhões na Latam, atribuído à elevação dos preços do petróleo e do QAV em decorrência do conflito no Irã, não deve ser vista como um fato isolado da indústria de aviação, mas sim como um sintoma claro e um alerta robusto para o cenário corporativo brasileiro. Em um ambiente global cada vez mais interconectado e volátil, eventos geopolíticos distantes têm repercussões diretas e imediatas nas cadeias de suprimentos, nos custos operacionais e, consequentemente, nas projeções financeiras e fiscais de empresas de todos os portes. O que presenciamos é a materialização de um risco sistêmico, onde a instabilidade de uma região transborda para o balanço de empresas que sequer possuem operações diretas nela, exigindo uma nova camada de sofisticação na gestão empresarial.
O que isso significa na prática
A declaração da Latam sobre a revisão de suas expectativas de lucro para 2026 é um indicativo claro de que os impactos de eventos externos não são meramente pontuais, mas com potencial para reconfigurar a estratégia de médio e longo prazo. Para CFOs e diretores financeiros, isso significa que a gestão de riscos transcende a análise macroeconômica tradicional. É imperativo incorporar a análise geopolítica, a volatilidade de commodities e as flutuações cambiais como variáveis primárias nos modelos de planejamento e orçamento. A pressão sobre as margens, decorrente do aumento de custos com insumos básicos ou fretes, pode inviabilizar projetos, exigir repasses de preços ou, ainda mais grave, corroer a lucratividade, com reflexos diretos na base de cálculo de tributos e na capacidade de investimento.
O impacto direto para as empresas se manifesta em múltiplas frentes. Companhias que dependem de transportes intensivos, seja para importação de matéria-prima, exportação de produtos acabados ou distribuição interna, verão seus custos logísticos dispararem. Setores industriais com alto consumo de energia e derivados de petróleo na produção sentirão uma pressão inédita. A depreciação do real frente ao dólar, um efeito comum em cenários de incerteza global, agravará a situação para empresas com dívidas em moeda estrangeira ou que importam componentes essenciais. Em termos tributários, embora o aumento dos custos operacionais possa reduzir o lucro tributável, a diminuição da liquidez e do capital de giro pode comprometer o fluxo de caixa, impactando o cumprimento de obrigações fiscais e a capacidade de aproveitar créditos ou incentivos que exigem investimento.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante desse cenário, a proatividade e a revisão contínua das estratégias são inegociáveis. Primeiramente, é crucial fortalecer a área de inteligência de mercado, com foco em monitoramento geopolítico e de commodities. Em paralelo, a gestão de riscos financeiros deve ser aprimorada, explorando instrumentos de hedge para commodities (petróleo, gás) e moedas, mitigando a exposição a flutuações abruptas. A revisão da cadeia de suprimentos é outra prioridade: diversificar fornecedores, avaliar contratos de longo prazo e buscar alternativas mais resilientes ou eficientes do ponto de vista energético. Por fim, e fundamental para nossa área de atuação, o planejamento tributário deve ser dinâmico. Quais são as oportunidades de otimização fiscal em um cenário de custos crescentes e margens apertadas? Há incentivos fiscais para eficiência energética ou para a diversificação de fontes de energia que possam ser explorados?
Em resumo, a lição do caso Latam é clara: a previsibilidade está em xeque. A era atual exige que CFOs e suas equipes de finanças atuem como verdadeiros estrategistas de risco, com uma visão abrangente que transcenda os limites tradicionais da contabilidade e finanças. A capacidade de antecipar, mitigar e se adaptar rapidamente a choques externos será o diferencial competitivo no longo prazo, transformando ameaças em oportunidades de resiliência e inovação. Ignorar esses sinais é colocar em risco não apenas os lucros projetados, mas a própria sustentabilidade do negócio em um mundo em constante ebulição.