A recente movimentação da Eternit, transferindo sua sede administrativa da efervescente Faria Lima em São Paulo para Hortolândia, no interior do estado, transcende uma mera notícia corporativa. O anúncio, que projeta economias anuais na casa dos milhões de reais, sem detalhar o investimento inicial ou a exata composição dessas economias, serve como um poderoso sinalizador para o mercado financeiro e estratégico brasileiro. Longe de ser um movimento isolado, a decisão da fabricante de materiais de construção de se aproximar de seus fornecedores e otimizar custos operacionais reflete uma reavaliação estratégica profunda, que pode reverberar em diversas indústrias e regiões do país.
O que isso significa na prática para as empresas
A decisão da Eternit não é apenas um corte de custos com aluguel em uma das regiões mais caras do país. Ela sinaliza uma abordagem holística para a gestão de valor, que integra otimização da cadeia de suprimentos, eficiências logísticas e um olhar atento para a carga tributária municipal e estadual. Cidades do interior de São Paulo, como Hortolândia, frequentemente oferecem regimes fiscais mais atraentes para o Imposto sobre Serviços (ISS) e o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), além de programas de incentivo fiscal e de desenvolvimento econômico (a exemplo de programas de incentivo à instalação de empresas, como os historicamente oferecidos por municípios ou o Investe SP em nível estadual, que podem conceder benefícios como redução de ICMS, facilidades na infraestrutura, etc.).
Além disso, a proximidade com fornecedores e centros de produção pode traduzir-se em redução significativa de custos de transporte, prazos de entrega mais curtos e maior flexibilidade na gestão de estoques. Em um cenário econômico desafiador, com pressões inflacionárias e gargalos logísticos, a otimização da cadeia de valor se torna um diferencial competitivo crucial. Há também o potencial de acessar um mercado de trabalho com custos mais competitivos e menor rotatividade, ou mesmo talentos específicos para o setor industrial, em comparação com os grandes centros urbanos.
O que sua empresa deve fazer agora
Para CFOs, controllers e diretores financeiros, o caso Eternit deve ser um convite à ação. Sua empresa deve iniciar uma análise multifacetada para avaliar a eficiência de sua atual localização e a viabilidade de uma reestruturação geográfica. Isso inclui:
- Revisão da Carga Tributária Local: Compare o ISS e IPTU pagos atualmente com as alíquotas e regimes de incentivo oferecidos por municípios que fazem sentido estratégico para sua operação (proximidade de clientes, fornecedores, mão de obra qualificada, infraestrutura).
- Análise da Cadeia de Suprimentos: Avalie os custos logísticos, prazos de entrega e riscos associados à sua atual disposição de fornecedores e centros de distribuição. Há ganhos significativos em se aproximar de elos cruciais da sua cadeia?
- Custos Operacionais e de Pessoal: Projete as economias potenciais com aluguel, utilidades, e considere a composição do custo de vida e de mão de obra em outras localidades.
- Mapeamento de Incentivos: Pesquise ativamente os programas de incentivo fiscal e de desenvolvimento econômico oferecidos por estados e municípios que se alinham com o perfil e necessidades da sua empresa.
É fundamental que essa revisão seja balizada por uma due diligence fiscal, societária e trabalhista rigorosa, com o apoio de consultores especializados. Uma mudança de sede envolve complexidades que vão além da economia aparente, como os impactos na cultura organizacional, na retenção de talentos e nos trâmites regulatórios. A decisão da Eternit nos lembra que a excelência na gestão fiscal e operacional exige um olhar constante para além das fronteiras tradicionais, buscando sinergias onde quer que elas se apresentem. A médio e longo prazo, a otimização geográfica e fiscal se consolida como um pilar da resiliência e competitividade empresarial.