A recente sinalização do governo federal sobre a iminência de quebras de safra de arroz e milho, aliada à necessidade de acionamento de usinas termelétricas para compensar a menor produção hidrelétrica decorrente do El Niño, projeta um cenário de desafios multifacetados para o ambiente corporativo brasileiro. Não se trata apenas de uma questão climática, mas de um gatilho para uma série de repercussões econômicas e fiscais que demandam atenção imediata das lideranças financeiras.
O que isso significa na prática
Na prática, as implicações são vastas. A quebra de safras de commodities essenciais como arroz e milho impactará diretamente a cadeia de suprimentos de alimentos, rações e etanol, elevando os custos de matéria-prima para indústrias processadoras, varejistas e o setor agroindustrial como um todo. A pressão sobre os preços ao consumidor é inevitável, podendo realimentar a inflação. Paralelamente, o acionamento das termelétricas, sabidamente mais caras e poluentes, traduz-se em um aumento do custo da energia elétrica para todos os consumidores, especialmente para o setor industrial, que já opera com margens apertadas. Este quadro pressiona o Custo Brasil, tornando as operações mais caras e impactando a competitividade.
Para as empresas, o efeito cascata será sentido em várias frentes. Os custos de produção aumentarão, seja pela aquisição de insumos agrícolas ou pelo insumo energético, exigindo uma revisão urgente das estruturas de precificação e das políticas de gestão de estoques. A carga tributária indireta, em particular PIS/COFINS e ICMS, pode sofrer variações em sua base de cálculo e alíquotas (em operações de importação de alimentos, por exemplo), e a gestão de créditos tributários sobre insumos mais caros se tornará ainda mais crítica. Empresas com contratos de fornecimento de energia no mercado livre precisarão monitorar a volatilidade dos preços, enquanto as do mercado cativo sentirão o impacto via bandeiras tarifárias. Além disso, a potencial redução de margens e lucratividade exigirá reavaliação das projeções de Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (IRPJ/CSLL), e pode afetar a capacidade de investimento e expansão.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante desse cenário, a proatividade é essencial. Sua equipe financeira deve iniciar imediatamente uma análise de sensibilidade robusta, modelando cenários com diferentes patamares de custos de energia e commodities. Revise seus contratos com fornecedores e clientes para entender cláusulas de reajuste e capacidade de repasse. Avalie a possibilidade de estratégias de hedge para commodities, se aplicável ao seu setor. Do ponto de vista tributário, é imperativo otimizar a gestão de créditos de PIS/COFINS e ICMS sobre os insumos e a energia. Um estudo aprofundado sobre regimes especiais, benefícios fiscais ou a viabilidade de teses de recuperação de créditos sobre energia elétrica pode mitigar parte do impacto. Além disso, a eficiência operacional e a busca por fontes alternativas de energia renovável devem ser aceleradas para reduzir a dependência do sistema interligado nacional e seus custos variáveis.
Em um horizonte de médio e longo prazo, a recorrente ameaça do El Niño e outros fenômenos climáticos reforça a necessidade de incorporar a resiliência climática na estratégia corporativa. Investimentos em tecnologias de gestão de risco, diversificação de fornecedores e aprofundamento na agenda ESG se mostram não apenas como um diferencial competitivo, mas como uma questão de sobrevivência financeira. O papel do CFO, neste contexto, transcende a mera gestão de números, tornando-se estratégico na blindagem e preparação da empresa para um futuro cada vez mais volátil e complexo, com o suporte de uma sólida consultoria jurídico-tributária para navegar pelas nuances da legislação.