No cenário corporativo brasileiro, a busca por crescimento e expansão muitas vezes elege a aquisição como a estratégia principal, sendo constantemente aplaudida como um sinal de ambição e dinamismo. Contudo, essa visão, embora enraizada, pode ser míope. O texto original de Ana Paula Vescovi levanta uma assimetria crucial: enquanto a venda de um negócio ainda desperta desconfiança, a evidência empírica sugere que, em média, os desinvestimentos geram mais valor para os acionistas do que as aquisições. Esta é uma mudança de paradigma que CFOs, controllers e diretores financeiros precisam internalizar com urgência.
O que isso significa na prática
Para a sua empresa, a aceitação desta realidade tem implicações profundas. Desinvestir não é um ato de fraqueza, mas sim uma demonstração de disciplina estratégica e inteligência financeira. Na prática, um desinvestimento bem-executado permite à empresa: 1) Focar no Core Business: Liberar recursos – financeiros, humanos e gerenciais – de ativos não-estratégicos ou de baixo desempenho, direcionando-os para áreas de maior potencial de retorno. 2) Otimizar a Alocação de Capital: O capital liberado pode ser reinvestido em projetos de maior rentabilidade, usado para reduzir endividamento ou retornar valor diretamente aos acionistas, melhorando métricas como ROIC e EVA. 3) Reduzir a Complexidade Operacional: Simplificar a estrutura corporativa, melhorando a eficiência e a agilidade. 4) Gerar Ganhos de Capital ou Otimizar Perdas: Sob a ótica tributária, um desinvestimento pode ser estruturado para gerar ganhos de capital de forma eficiente ou, em casos de unidades com perdas crônicas, para o aproveitamento de créditos tributários ou a baixa de ativos que impactam negativamente o balanço.
O que sua empresa deve fazer agora
É imperativo que sua equipe financeira adote uma postura proativa em relação à gestão de portfólio. A primeira medida é instituir um processo robusto de revisão periódica de ativos e unidades de negócio. Isso significa ir além da análise superficial e aplicar critérios rigorosos de desempenho, alinhamento estratégico, sinergias e potencial de valorização futura. Desenvolva métricas objetivas para identificar quais ativos estão consumindo capital e tempo de gestão sem entregar o retorno esperado ou sem se encaixar na visão de longo prazo da empresa. Encare a venda de ativos não-essenciais como uma ferramenta de gestão estratégica, e não como um último recurso.
Mais especificamente, sua equipe financeira deve iniciar imediatamente um mapeamento de ativos não essenciais ou com performance abaixo do esperado, buscando consultoria multidisciplinar para avaliar cenários de desinvestimento sob as óticas financeira, jurídica e, especialmente, tributária. A estrutura fiscal de um desinvestimento – venda de ativos versus venda de participações societárias, aproveitamento de ágio, impacto de perdas fiscais – pode otimizar significativamente o valor líquido da operação. Um planejamento tributário antecipado é crucial para maximizar o retorno e evitar contingências. Um desinvestimento bem-executado não é apenas uma transação; é um sinal de gestão financeira sofisticada e um pilar para a sustentabilidade e crescimento de longo prazo da sua empresa.