A notícia de que cinco gigantes do varejo – Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza – encerraram as atividades de mais de 1.100 unidades físicas desde 2022 não é apenas um dado estatístico; é um sintoma claro de uma profunda reestruturação do mercado brasileiro. Este movimento, impulsionado por fatores macroeconômicos como altas taxas de juros, endividamento do consumidor e inflação persistente, é exacerbado pela mudança estrutural no comportamento de compra, com a migração acelerada para o e-commerce e a crescente competição de players digitais e internacionais. Para o CFO e o Controller, a leitura superficial dos números dá lugar a uma análise crítica sobre a sustentabilidade dos modelos de negócio tradicionais e a inevitabilidade de adaptações profundas.
O que isso significa na prática
Na prática, essa onda de fechamentos revela a pressão insustentável sobre a rentabilidade das operações físicas. Para além dos desafios de vendas, as empresas se deparam com elevados custos operacionais, como aluguel, condomínio, mão de obra e, crucialmente, uma complexa carga tributária. A necessidade de revisitar contratos de locação, gerenciar passivos trabalhistas decorrentes de demissões e endereçar os impactos fiscais do encerramento de atividades – como o tratamento de estoques e ativos fixos e a apropriação de créditos de ICMS e IPI – torna-se um imperativo estratégico. A situação da Americanas e Marisa, em recuperação judicial, exemplifica o risco de liquidez e a fragilidade financeira que podem emergir quando não há uma gestão proativa e integrada de custos, receitas e riscos fiscais.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante desse cenário dinâmico, sua empresa, seja ela uma varejista, fornecedora ou parceira estratégica, deve agir com proatividade e inteligência. Recomenda-se uma análise detalhada do portfolio de ativos, avaliando a rentabilidade de cada ponto de venda sob uma ótica não apenas comercial, mas também fiscal e operacional. É fundamental implementar um planejamento tributário estratégico que contemple cenários de reestruturação, otimizando o aproveitamento de créditos fiscais (PIS/COFINS, ICMS) sobre despesas e custos, e minimizando o impacto de impostos incidentes sobre a venda ou baixa de ativos. Além disso, a gestão de passivos, especialmente os tributários e trabalhistas, deve ser rigorosa, com provisionamento adequado e, se necessário, negociações com credores e fornecedores. Para os fornecedores, reforçar a due diligence e a análise de risco de crédito de seus clientes do varejo é indispensável.
Em última análise, a capacidade de navegar neste ambiente turbulento reside na agilidade e na precisão da tomada de decisões. O alinhamento entre as áreas Financeira, Tributária e Jurídica é mais crítico do que nunca para identificar riscos, otimizar estruturas e garantir a conformidade em meio a transições complexas. A reestruturação do varejo não é um evento isolado, mas um processo contínuo que exigirá das empresas uma constante adaptação de suas estratégias, incluindo a redefinição da presença física, o fortalecimento do omnichannel e uma gestão de capital de giro extremamente eficiente. Aqueles que entenderem o componente fiscal e legal como um diferencial estratégico, e não apenas como um custo, sairão mais fortes desta transformação.