A notícia da prisão de Jonathan Andic, filho do fundador da gigante do varejo Mango, Isak Andic, sob investigação pela morte do pai, é mais do que uma trágica saga familiar. Para o mundo corporativo, e em especial para CFOs e diretores financeiros de empresas de médio e grande porte no Brasil, ela serve como um alerta contundente sobre a fragilidade da gestão de crises, a sucessão em negócios familiares e a resiliência da governança corporativa. Longe de ser um evento isolado, a situação na Mango ilustra cenários extremos que podem comprometer a estabilidade e a reputação de qualquer organização.
O que isso significa na prática
A instabilidade gerada por eventos como este transcende o aspecto pessoal, infiltrando-se rapidamente nas estruturas de poder e na percepção de mercado. No contexto de uma empresa com a dimensão da Mango, uma lacuna de liderança, especialmente sob o manto de uma investigação criminal envolvendo o herdeiro, pode resultar em paralisação estratégica, fuga de talentos, desconfiança de investidores e parceiros comerciais, e até mesmo um impacto direto sobre a valorização da marca. Para empresas brasileiras, muitas das quais ainda mantêm forte controle familiar ou de fundadores, a situação destaca a necessidade premente de:
- Planos de Sucessão Formalizados: Não basta ter um herdeiro; é preciso que haja um processo claro e documentado para transições de liderança, incluindo cenários inesperados.
- Governança Robusta e Independente: Um conselho de administração diversificado e com membros independentes pode mitigar riscos de dependência excessiva de figuras-chave e garantir a continuidade operacional em momentos de crise.
- Gestão de Crises Estruturada: A forma como a empresa comunica e gerencia a percepção pública de um evento disruptivo é crucial para a preservação de valor e confiança.
O que sua empresa deve fazer agora
Este é o momento de reavaliar e fortalecer as estruturas de governança e compliance. Não espere que uma crise se manifeste. Comece revisando o estatuto social e os regimentos internos para garantir que haja clareza nos processos decisórios e nas linhas de sucessão. Avalie a composição do seu conselho e comitês, buscando uma verdadeira independência e diversidade de perspectivas. Para as empresas familiares, é fundamental profissionalizar a gestão, separando os interesses da família dos interesses do negócio, estabelecendo acordos de acionistas claros e políticas de relacionamento com stakeholders. Uma auditoria interna de riscos, com foco em eventos disruptivos de liderança e imagem, é um passo imperativo.
A ação concreta é iniciar um diálogo aberto dentro da alta gestão e com o conselho sobre a resiliência do seu modelo de governança. Crie ou revise um manual de crise que aborde não apenas desastres naturais ou ataques cibernéticos, mas também eventos envolvendo a alta liderança. Invista em seguros de D&O (Directors and Officers) adequados e garanta que sua equipe jurídica e de comunicação estejam preparadas para agir proativamente. A longo prazo, a capacidade de uma empresa de sobreviver e prosperar em meio a crises inesperadas é um testemunho direto da qualidade de sua governança e de seu compromisso com a perenidade do negócio, muito além dos nomes em sua diretoria.