A recente notícia sobre os resultados mistos de vendas de montadoras chinesas como Geely Auto, BYD e Leapmotor no cenário global de veículos elétricos (EVs), em meio à acirrada concorrência com a Tesla, é mais do que um dado mercadológico. Para CFOs, controllers e diretores financeiros de médias e grandes empresas brasileiras, este cenário reflete a crescente maturidade e, consequentemente, a intensa volatilidade de um mercado que tem forte intersecção com a política fiscal e regulatória global. O que vemos não é um crescimento linear, mas uma disputa por market share que moldará as cadeias de suprimentos, as estratégias de investimento e, crucialmente, os custos tributários e de importação em mercados como o nosso.
O que isso significa na prática
No Brasil, o momento é particularmente complexo. A decisão recente de restabelecer e aumentar o Imposto de Importação (II) sobre veículos elétricos e híbridos, com alíquotas que subirão progressivamente até 2026, adiciona uma camada de complexidade significativa. A performance oscilante das marcas chinesas no exterior sugere que a guerra de preços e a busca por competitividade podem se intensificar. Para as empresas brasileiras, isso se traduz em um desafio duplo: primeiro, a necessidade de reavaliar o custo de aquisição e manutenção de frotas elétricas ou de componentes para produção local, considerando as novas alíquotas e a possível pressão sobre os preços internacionais; segundo, a volatilidade no desempenho desses players globais pode impactar a estabilidade de parcerias de longo prazo e a resiliência das cadeias de suprimentos, especialmente para empresas que dependem de componentes ou tecnologias provenientes da China.
O impacto direto para as empresas é multifacetado. Setores como logística, transporte, locadoras de veículos e empresas com grandes frotas estão diretamente expostos. A imprevisibilidade na demanda global e os resultados inconsistentes das montadoras podem gerar incertezas nos prazos de entrega, na disponibilidade de modelos e na capacidade de absorção de custos decorrentes das novas alíquotas de importação. Além disso, empresas com compromissos ESG de descarbonização de suas frotas precisam de um planejamento financeiro e tributário robusto para acomodar esses custos adicionais e garantir a viabilidade econômica de suas metas. A análise do cenário deve ir além do preço de compra, contemplando a vida útil da frota, custos de energia, infraestrutura de recarga e, claro, o impacto de eventuais créditos tributários ou incentivos futuros.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante deste cenário, a ação é imperativa. Primeiro, realize uma revisão aprofundada de sua estratégia de aquisição e renovação de frotas. Modele cenários de custos com base nas alíquotas crescentes do Imposto de Importação e na volatilidade cambial. Segundo, diversifique suas fontes de suprimento e parcerias, quando possível, para mitigar riscos associados à dependência de um único player ou região. Acompanhe de perto as políticas industriais e fiscais brasileiras, pois o governo pode vir a oferecer incentivos para a nacionalização da produção de EVs ou de seus componentes, o que poderia alterar o cenário de custos a médio e longo prazo. Terceiro, envolva sua equipe de gestão fiscal e tributária em discussões estratégicas. É fundamental explorar todas as oportunidades de otimização tributária, desde a análise do NCM dos produtos importados até a busca por regimes especiais que possam aliviar a carga sobre a importação de tecnologias e componentes essenciais para a transição energética. A expertise jurídica e tributária será um diferencial para navegar neste ambiente regulatório dinâmico.
Em suma, o mercado global de EVs, impulsionado pela China, está em constante evolução. Para as empresas brasileiras, a chave está na proatividade, na inteligência de mercado e na adaptação fiscal estratégica. Não se trata apenas de escolher entre um ou outro modelo, mas de compreender as forças macroeconômicas e regulatórias que moldam o futuro da mobilidade e dos custos associados.