Em um cenário político cada vez mais complexo e polarizado, os eventos que, à primeira vista, parecem meras disputas internas ou 'fogo amigo' dentro de um bloco político, carregam significados muito mais profundos para o mundo corporativo do que se imagina. A recente defesa pública da senadora Damares Alves à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, pedindo o fim de ataques internos, é um exemplo claro de como a aparente fragilidade da coesão interna em um grupo político pode sinalizar tendências que afetam diretamente o arcabouço regulatório e o ambiente de negócios. Para CFOs e diretores financeiros, isso não é apenas uma notícia política; é um termômetro da capacidade de articulação e da previsibilidade de decisões que impactam seus orçamentos e estratégias.
O que isso significa na prática
A falta de coesão e o surgimento de 'fogo amigo' dentro de um campo político relevante, seja ele situacionista ou de oposição, traduz-se em maior imprevisibilidade legislativa. Pautas econômicas cruciais, reformas tributárias, marcos regulatórios setoriais e projetos de lei que afetam a competitividade das empresas dependem de um mínimo de consenso e articulação para avançar. Quando as energias são desviadas para disputas internas, a capacidade de se chegar a um denominador comum em temas de interesse nacional diminui drasticamente. Isso pode levar a atrasos na tramitação de projetos essenciais, desidratação de propostas originais ou, pior, a aprovação de textos fragmentados e com menor impacto positivo.
Para as empresas, a consequência direta é o aumento do risco regulatório e político. A dificuldade em prever o desfecho de discussões importantes gera incerteza sobre o custo de fazer negócios no Brasil, as regras do jogo e até mesmo as perspectivas de crescimento em determinados setores. Investimentos de longo prazo podem ser postergados ou reconsiderados, enquanto o planejamento tributário e financeiro torna-se um exercício de múltiplos cenários, alguns deles bastante adversos, devido à volatilidade das decisões políticas.
O que sua empresa deve fazer agora
Diante desse cenário de fragmentação e instabilidade, que transcende a pauta de governo e se estende às próprias forças políticas, é imperativo que as empresas intensifiquem suas estratégias de monitoramento e gestão de risco. Em primeiro lugar, é crucial ir além da leitura superficial das notícias e investir em inteligência política aprofundada. Isso significa não apenas acompanhar o que é votado, mas entender as dinâmicas de bastidores, as articulações e, sim, as disputas internas que podem minar a força de um bloco político na defesa de certas pautas.
Em segundo lugar, a flexibilidade e a resiliência das estruturas corporativas devem ser priorizadas. Tenha planos de contingência para diferentes desdobramentos legislativos e econômicos. Isso inclui a modelagem de cenários para a reforma tributária (seja ela aprovada integralmente, desidratada ou adiada), para mudanças em marcos regulatórios específicos do seu setor e para o impacto de possíveis novas instabilidades na economia. Por fim, o fortalecimento da área de Compliance e Governança Corporativa é mais importante do que nunca, não apenas para garantir a aderência às leis existentes, mas para antecipar e mitigar riscos em um ambiente onde a segurança jurídica pode ser abalada por oscilações políticas. Engaje-se, através de associações setoriais, no diálogo com o poder público, buscando influenciar as pautas e defender os interesses legítimos de seu negócio.
A lição que se tira de eventos como o 'fogo amigo' é que a política não é um ambiente estático, e as dinâmicas internas de poder são tão relevantes quanto as votações públicas. Para o CFO, essa é a realidade de um ambiente de negócios que exige vigilância constante, capacidade analítica apurada e agilidade para adaptar a estratégia corporativa a um Brasil que muda rapidamente.